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03-05-2022

Entrevista a…

 

 

 

Joana Cancela | A Unidade de Hospitalização Domiciliária da ULSM celebrou no início de maio um ano de atividade assistencial. Nascida em plena pandemia, as oportunidades e os desafios cruzam-se na certeza de que ainda há muito para fazer, a começar pela mudança de paradigma na prestação de cuidados hospitalares em casa. Ainda assim, inquéritos realizados em 2021 mostram que 88% dos utentes e 85% dos cuidadores estão “muito satisfeitos”. Um incentivo para a equipa que quer aumentar a sua capacidade de lotação para dez doentes em simultâneo e mudar-se para um espaço “base” mais central, localizado no edifício do Hospital Pedro Hispano (HPH). Nos últimos 12 meses acompanharam perto de 190 doentes, apesar de “algum desconhecimento que ainda existe sobre o potencial e a segurança deste tipo de internamento” e do trabalho desta equipa que ambiciona crescer.

A Unidade de Hospitalização Domiciliária começou a funcionar em plena pandemia. Apesar das circunstâncias difíceis, que benefícios trouxe à resposta hospitalar?

 O início da atividade da UHD-ULSM, a 3 de maio de 2021, coincidiu com um período de desaceleração da pandemia por SARS-CoV2, pelo que nos foi possível concentrar energias em montar a estrutura física, humana e organizacional de uma unidade criada do zero. Nesse aspeto, o principal obstáculo foi não ter a certeza de quando a pandemia nos daria tréguas para começar, uma vez que a equipa médica estava alocada às “enfermarias covid”.

Algumas UHD existentes no país cresceram com a pandemia, mas outras interromperam a atividade. O nosso esforço foi mesmo “nascer” durante uma pandemia! De qualquer forma, no ano de 2021, conseguimos “poupar” 1 255 dias de ocupação de camas de internamento convencional, que acredito terem sido muito úteis e necessárias para outros pacientes.

Perante esta nova resposta assistencial que obstáculos foi preciso ultrapassar?

 Classicamente, a nossa prática clínica como internistas é gerir doentes agudos/ crónicos agudizados no serviço de Urgência ou no Internamento. Na UHD tivemos de nos obrigar a pensar diferente, a ter a confiança em assumir que é possível gerir aquela situação em casa do utente. Tem sido útil a convivência muito próxima com a Equipa de Suporte de Doentes Crónicos Complexos (ESDCC), com colegas internistas que já geriam agudizações dos seus utentes, sem recorrer ao hospital.

Ao nível do raciocínio clínico, a UHD obriga a pensar fora “do conforto” que é estar no HPH. Decidir até que ponto este ou aquele exame é mesmo necessário? Questionar se o cuidador é capaz de lidar com as alterações terapêuticas ou temos de adaptar/simplificar melhor?

Afinal, trata-se de uma mudança de paradigma na prestação de cuidados. Nem sempre terá sido fácil para a equipa, mas também para os outros profissionais e serviços, até no no contexto hospitalar…

Sim, sem dúvida. Também tivemos que lidar com outras situações, pequenas coisas que agora parecem insignificantes, mas que tivemos que explicar. Por exemplo, no laboratório perceberem que as nossas análises tinham de ser processadas tal como as do Internamento no HPH, e não como as dos doentes em Ambulatório; um utente nosso chegar à radiologia para fazer uma tomografia e estranharem vir com um cateter periférico colocado e termos de relembrar para não o retirarem; reforçar nas enfermarias que o doente não precisava de receitas, nem de notas de alta impressas quando passava para o internamento em casa. Era como se fôssemos um novo funcionário da ULSM, e tivéssemos de repetir quem somos e o que fazemos! Felizmente, pelo menos dentro do HPH, tudo isso tem melhorado.

E ao nível da organização da equipa, dos profissionais necessários à equipa da UHD?

Em termos de organização, tem dificultado não termos um assistente técnico nem assistente operacional próprios (são partilhados com o Centro de Vacinação, uma vez que a nossa base é nesse local), mas espero que, continuando a mostrar o acréscimo de valor que trazemos à ULSM, estes profissionais possam ser alocados de forma mais consistente.

Também conseguimos ultrapassar parcialmente o défice da UHD de falta de profissionais habilitados para fazer reabilitação, graças ao apoio dos enfermeiros especialistas em Enfermagem de Reabilitação do Programa do Doente Respiratório Crónico, que avaliam e proporcionam esse tipo de tratamento aos doentes que lhes referenciamos.

 Qual a reação dos doentes? E das famílias?

 A reação tem sido muito positiva. Digo isto tendo por base a subjetividade de nos dirigirem palavras de apreço e a simpatia quando nos recebem em casa, mas também objetivamente. Os inquéritos de avaliação de satisfação que pedimos que preencham, de forma anónima, e nos entreguem no final de cada internamento mostram que 88% dos utentes e 85% dos cuidadores estavam ‘muito satisfeitos’ na avaliação global do serviço prestado, e recomendariam a UHD da ULSM a um amigo ou familiar. Estes inquéritos referem-se a 2021.

Quantos doentes já foram acompanhados nas suas casas? Quais as situações clínicas mais prevalentes?

Por limitações na dimensão da equipa médica e da frota, temos tido uma flutuação da lotação da UHD, entre 5 a 10 doentes (capacidade máxima que tivemos durante 4 meses). Em 12 meses de atividade admitimos 186 doentes. Desses doentes, seis por cento tiveram de regressar ao hospital (geralmente por opção da equipa, por descompensação não gerível em segurança em casa, e mais raramente por desconforto dos cuidadores), o que está em linha com a média nacional.

Em termos de patologias, as mais prevalentes são as infeciosas, com necessidade de antibioterapia parentérica, nomeadamente das vias urinárias e respiratórias, com necessidade de controlo clínico e/ou analítico regular. Temos também agudizações de doença pulmonar crónica (DPOC, bronquiectasias). Precisamos de crescer na gestão em casa da insuficiência cardíaca agudizada, e nos doentes pós-cirúrgicos não urológicos (quer na gestão de complicações infeciosas, quer na descompensação das comorbilidades médicas).

De referir que também colaboramos com a Equipa de Cuidados Paliativos (uma equipa com grande maturidade na ULSM) sempre que nos é solicitado.

Este mês de maio a UHD comemorou um ano de atividade assistencial. Que expetativas de futuro?

De uma forma pragmática, para o nosso segundo ano de atividade, eu salientaria as seguintes condições: a necessidade de termos condições para aumentar a lotação para 10 utentes em simultâneo; de conseguirmos um espaço dentro do edifício principal no HPH onde funcionasse a nossa base, pois ficaríamos mais próximos da fonte principal de referenciações (Internamento e Serviço de Urgência); de encetar protocolos com as ERPI (Estruturas Residenciais Para Idosos), de modo a que essa população possa usufruir do nosso serviço. Com este objetivo já tivemos reuniões preliminares com o Serviço Social da ULSM e a Câmara Municipal de Matosinhos.

Também gostaríamos de ganhar experiência com o programa de telemonitorização, desenvolvido pela SPMS em parceria com a ULSM e melhorar a divulgação à comunidade ULSM do que a UHD faz, e do que pode fazer. Sim, temos mesmo de melhorar a divulgação do que temos aprendido aos colegas que trabalham nas enfermarias, para conhecerem o nosso potencial e confiarem na segurança deste tipo de internamento.

Já agora, aqui fica o nosso email unidadehd@ulsm.min-saude.pt, e a nossa  extensão telefónica: 2050

   

 

  


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