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DPOC – Doença Pulmonar Obstrutiva Crónica

No Dia Mundial da Doença Pulmonar Obstrutiva Crónica falámos com a médica Paula Simão, assistente graduada sénior de Pneumologia Unidade Local de Saúde de Matosinhos, e o médico João Carvalho, assistente de Pneumologia do Hospital Pulido Valente, sobre o impacto que esta doença tem na qualidade de vida das pessoas e da importância de um diagnóstico atempado. O lema da campanha – “Nunca é cedo de mais, nunca é tarde” – refere-se ainda ao facto de a maioria dos doentes serem diagnosticados tardiamente.

Os médicos referem ainda que existe um tratamento pioneiro e inovador em Portugal: a Reabilitação Respiratória Domiciliária. Mas a mudança de hábitos ainda é fundamental. É que 10% a 15% dos fumadores irão sofrer de DPOC, bem como pessoas com exposição ao fumo do tabaco. A DPOC que afecta 14,2% dos portugueses com mais de 40 anos

Quais são os sintomas da Doença Pulmonar Obstrutiva Crónica (DPOC)? A que sinais devem estar atentas as pessoas?
Paula Simão (P.S.): A Doença Pulmonar Obstrutiva Crónica (DPOC) é uma patologia que ao longo dos anos apresenta uma evolução que limita muito as actividades de vida diária das pessoas, acabando por levar a um quadro de grande incapacidade. Os sintomas de alerta são a falta de ar, tosse, expectoração e cansaço com os esforços que se vão tornando cada vez mais frequentes e presentes no dia a dia à medida que a doença evolui.

Além dos sintomas de índole respiratória, acompanha-se de várias comorbilidades como a doenças cardiovasculares, depressão, osteoporose e risco significativamente mais alto do doente vir a desenvolver cancro do pulmão.

Nos casos mais graves, a DPOC reduz drasticamente a qualidade de vida ao não permitir a realização normal das actividades de vida diária, sendo que o doente acaba por evitar cada vez mais sair de casa, levando a um isolamento social progressivo.

A DPOC apresenta manifestações insidiosas, com instalação gradual cujos sintomas são muitas vezes desvalorizados pela própria pessoa, é também tantas vezes esquecida pelos clínicos até ao primeiro “ataque”(exacerbação). Portanto, recomenda-se a atenção e consciencialização sobre todos os pequenos sinais que se vão manifestando no decorrer do processo de instalação da doença.

Em que consiste a doença? Que tipo de pessoas são mais atingidas por esta doença?
(P.S.): A DPOC é uma doença comum, prevenível e tratável caracterizada por sintomas respiratórios persistentes e limitação do fluxo aéreo derivado a anomalias das vias respiratórias e/ou alveolares, normalmente causadas pela exposição significativa a gases ou particulas nocivas.
A limitação crónica do fluxo, característica da DPOC é causada pela combinação da patologia das pequenas vias aéreas e pelas destruição parenquimatosa (enfisema), contribuições relativas que variam de pessoa para pessoa.

As pessoas mais atingidas pela doença assumem, normalmente, comportamentos de risco, sendo que a idade e o género masculino são factores predominantes, isto é, aparece mais em idades tardias (depois dos 40 anos) e nos homens.

Quais são os piores comportamentos de risco?
João Carvalho (J.C.): Os piores comportamentos de risco prendem-se com a exposição a agentes nocivos como o tabaco, irritantes ambientais como a queima de biomassa ou poluição ambiental. Os doentes que, mesmo após o diagnóstico de DPOC, mantenham exposição aos agentes nocivos como o tabaco apresentarão um declínio muito mais rápido da função respiratória e consequentemente da doença. A principal medida a tomar é a exposição a esses agentes.

Fumar está no topo das causas?
(J.C.): O tabagismo é sem dúvida o principal factor de risco para o desenvolvimento desta doença, sabendo-se que 10% a 15% dos fumadores vêm a sofrer de DPOC, bem como pessoas com exposição ao fumo do tabaco (fumadores passivos).

Contudo, o consumo de tabaco em Portugal tem vindo a diminuir, muito devido a uma maior consciencialização da população dos malefícios do tabagismo. Para esta mudança de comportamento, tem sido importante uma intervenção mais activa através de campanhas publicitárias de forma a alertar para os riscos de fumar. É essencial continuar a aposta neste tipo de campanhas, de maneira a manter esta mudança de comportamento na população portuguesa no que ao tabagismo diz respeito.

Qual é o número de doentes em Portugal?
(P.S.): A par das doenças cardiovasculares, as doenças respiratórias crónicas, nomeadamente a doença pulmonar obstrutiva crónica (DPOC), serão a principal causa de incapacidade nas próximas décadas. Nos últimos anos em Portugal, tem se vindo a registar um aumento de doenças respiratórias crónicas, que são responsáveis por um grande impacto na vida dos doentes e por elevados custos com a saúde.

Estas atingem cerca de 40% da população portuguesa, sendo a mais comum a DPOC que afeta 14,2% dos portugueses com mais de 40 anos. Segundo o relatório do Programa Nacional para as Doenças Respiratórias, o número de utentes inscritos activos nos cuidados de saúde primários com diagnóstivo de DPOC é superior a 130 mil em 2016. Estima-se, no entanto que o número real de doentes DPOC seja 5 vezes superior aos registados, devendo-se este facto ao não diagnóstico da patologia.

Portanto, acredita-se que apesar de muito prevalente, a DPOC continua a ser subdiagnosticada. Tradicionalmente seguidos pelo pneumologista hospitalar, já que a maioria dos doentes são diagnosticados tardiamente em fases muito avançadas da doença, desde há vários anos que se têm desenvolvido esforços conjuntos entre os cuidados primários e hospitalares, no sentido de um diagnóstico mais precoce. Para que isto aconteça é preciso dotar os cuidados primários de acesso generalizado à espirometria (diagnóstico), e oferecer às pessoas acesso facilitado a consultas de cessação tabágica e a reabilitação respiratória, pressupostos que estão previstos no despacho emitido pela tutela (despacho 6300/2016).

Porque motivo esta é uma patologia sub-diagnosticada?
(P.S.): O principal motivo para que esta seja uma patologia sub-diagnosticada é o facto da progressão ser lenta e desvalorizada acabando por se atribuir a presença dos sintomas a características da idade. Para impedir uma progressão mais rápida da DPOC com consequente impacto na vida individual e social da pessoa, é extremamente importante que quer o doente quer o clínico estejam alerta para estes sintomas, principalmente nos fumadores, de forma a que se possa realizar o diagnóstico de forma antecipada.

O diagnóstico é efetuado através de um exame que avalia a função respiratória, a espirometria. É um exame simples, indolor e de baixo custo que permite perceber o grau de gravidade em que a doença se encontra orientando desde logo para o tratamento da doença. A identificação dos indivíduos em fases mais iniciais da doença reveste-se de uma importância enorme, permitindo intervenções terapêuticas precoces e menos onerosas, que melhorando os doentes, poderão impedir a progressão da doença, em suma poderão poupar muitos anos de vida e muitos milhões de euros.

Qual é a taxa de sucesso dos tratamentos?

(J.C.): Actualmente existe uma enorme disponibilidade de fármacos inaladores para o tratamento da DPOC, com excelente perfil de eficácia e segurança. A escolha dos inaladores e a realização correta da sua técnica inalatória são determinantes para o objetivo de uma boa adesão e eficácia da terapêutica. Para atingir tal objetivo, é extremamente importante que os profissinais de saúde que lidam com estes doentes dispendam muito tempo no ensino da técnica inalatória.

Os “ataques” (exacerbações) de DPOC têm um papel vincado na progressão da doença, sendo inclusive comparados ao enfarte agudo do miocárdio na doença cardiovascular. O seu impacto na morbilidade e mortalidade na DPOC é enorme, pelo que a diminuição destes “ataques” é o objetivo primordial do tratamento desta doença. A taxa de sucesso do tratamento depende de certas variáveis como a utilização correta e adequada dos inaladores, a adesão à cessação tabágica, a promoção de estilos de vida saudáveis e a realização da vacinação. Complementarmente, a todos os doentes (com indicação) deveria ser oferecida a possibilidade de tratamento num programa de reabilitação respiratória estruturado. As pessoas que aderirem às premissas anteriormente referidas terão com certeza uma maior taxa de sucesso de tratamento e consequentemente um número muito menor de “ataques” da DPOC.

Qual é o maior desafio na recuperação destes doentes?
(P.S.): A consciencialização e a educação para a saúde que visam mudanças de comportamento apresentam-se como os maiores desafios na recuperação dos doentes com DPOC, sendo que a Reabilitação Respiratória assume um papel fulcral.

A Reabilitação Respiratória é uma intervenção integrada, com base numa avaliação completa do doente, que inclui, embora não limitando, componentes de exercício físico, educação e mudança de comportamento projetado para melhorar a condição física e psicológica do doente com doença respiratória crónica, tendo como objetivo promover a adesão a longo prazo de comportamentos que melhoram a saúde. A componente educacional visa promover o exercício físico, uma alimentação correcta, a cessação tabágica nos fumadores, e a vacinação para prevenir as infeções respiratórias a vírus e bactérias. A readaptação ao esforço é uma intervenção fundamental em todos os doentes que apresentam falta de ar e diminuição da tolerância ao esforço nas atividades da vida diária.

Nas fases mais avançadas da doença, os doentes que apresentam insuficiência respiratória crónica poderão beneficiar de oxigenoterapia de longa duração e/ou a ventilação não invasiva, aumentando a sua capacidade física, ajudando-os a respirar melhor e consequentemente melhorando a sua qualidade de vida, assumindo a Reabilitação Respiratória também um papel essencial.

Referem apenas 1% tem acesso a programas de reabilitação. Porquê?

(J.C.): A Reabilitação Respiratória pode ser realizada em contexto hospitalar ou na comunidade, quer em centros de saúde, clínicas de reabilitação ou no próprio domicílio do doente. Em Portugal, o contexto hospitalar é definitivamente o que está mais implementado mas apenas nos principais centros hospitalares do país. Esta realidade leva a que apenas 1% dos doentes com DPOC tenha acesso a estes programas de reabilitação, quer porque os hospitais não conseguem incluir todos os doentes com DPOC, quer porque muitos doentes vivem longe ou têm dificuldade de acesso aos centros hospitalares com programas de Reabilitação Respiratória.

O que fazer para combater esta realidade?
É necessário conseguir implementar mais programas de Reabilitação Respiratória, seja na comunidade, em centros especializados ou no domicílio, de acesso mais fácil, o que levará à integração de um maior número de doentes.

Para combater esse défice, foi implementado há um ano e meio um programa inovador de reabilitação respiratória; trata-se portanto do primeiro Programa de Reabilitação Respiratória Domiciliária em Portugal. Inspirado no Living Well With COPD (Viver Bem com a DPOC) a Praxair (empresa de cuidados respiratórios domiciliários) criou o ReabilitAR DPOC, que cuida das pessoas com DPOC na envolvência do seu domicilio e vida habitual.

Como funciona este programa de reabilitação e qual é o seu sucesso?

(J.C.): O ReabilitAR DPOC, consiste em levar a Reabilitação Respiratória ao domicílio do doente, com a clara vantagem deste não ter que se deslocar ao hospital, realizar os diversos exercícios no meio onde vive e aprender a gerir as limitações causadas pela doença no seu ambiente do dia a dia.

Trata-se de uma alternativa e um complemento às soluções existentes, com direito a uma equipa altamente especializada, no domicílio, intervenção personalizada, linha de apoio 24h/7dias , flexibilidade de horário, envolvimento dos familiares próximos e adaptação às condições de habitação.

A equipa interdisciplinar é constituída por um médico pneumologista, enfermeiros de reabilitação, por fisioterapeutas, psicólogos, nutricionistas e farmacêuticos, cujos papéis se encontram bem definidos em prol da recuperação da pessoa com DPOC. É um programa com segurança, eficácia e qualidade demonstrada, que actua em todo o território nacional continental.

Os resultados do programa têm sido muito promissores, com todos os doentes que o integram a apresentarem franca melhoria na sua capacidade física, melhor conhecimento da sua doença e a cuidar da sua saúde, com promoção da autogestão da patologia e resolução das dificuldades impostas pela doença. Essas conquistas têm resultado no aumento da qualidade de vida, redução de exacerbações e redução da dependência dos cuidados de saúde.

Qual é a importância deste dia mundial?

(P.S.): A GOLD (Global Initiative for Chronic Obstrutive Lung Disease) determinou desde 2002 que a 3ª quarta-feria do mês de Novembro é dedicada à Doença Pulmonar Obstrutiva Crónica com acções de divulgação e educação, este ano sob o tema Never too early, never too late – (Nunca é cedo de mais, nunca é tarde de mais).

Assinalar este dia revela-se importante na medida em que chama a atenção para uma doença que se prevê que seja a terceira principal causa de morte mundialmente, nos próximos dois anos. Continuar a apostar em estratégias de prevenção dos factores de risco e promoção de estilos de vida saudáveis é essencial para que a incidência e prevalência da DPOC venham a diminuir no futuro. Mas é importante também continuar a apostar em estratégias de diagnóstico precoce (daí que o acesso à espirometria é fundamental), bem como em estratégias de acessibilidade aos tratamentos existentes, entre eles a reabilitação respiratória.

 Sábado 

 


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